O crescimento do número de animais de estimação nos condomínios brasileiros trouxe consigo uma nova categoria que tem gerado conflitos nas assembleias e nos tribunais: o animal de suporte emocional (ASE). Síndicos recebem laudos psicológicos de moradores que pedem autorização para manter animais em unidades onde a convenção proíbe pets, ou que exigem acesso a áreas comuns restritas. A pergunta que se coloca é direta: o animal de suporte emocional tem tratamento jurídico diferente do pet comum? A resposta é sim — mas com limites importantes que este artigo examina.


O que é um animal de suporte emocional

O animal de suporte emocional (em inglês, Emotional Support Animal — ESA) é um pet que, por indicação de profissional de saúde mental, exerce função terapêutica para o seu tutor. Diferentemente do animal de estimação comum, cuja presença é uma escolha de estilo de vida, o ASE integra o tratamento de condições como transtorno de ansiedade generalizada, depressão, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), transtorno do espectro autista e outras condições psiquiátricas ou psicológicas. O vínculo afetivo com o animal é reconhecido como parte do protocolo terapêutico.

A distinção entre as três categorias principais de animais com função assistencial é fundamental para compreender o regime jurídico aplicável:

CategoriaFunçãoTreinamento específicoLegislação federalAcesso irrestrito
Cão-guiaAuxiliar pessoa com deficiência visual na locomoçãoSim, treinamento formal obrigatórioLei nº 11.126/2005 e Decreto nº 5.904/2006Sim — todos os ambientes de uso coletivo
Animal de serviçoAuxiliar pessoa com deficiência física, auditiva ou intelectualSim, treinamento formalDecreto nº 3.298/1999 e normas da ABNTSim — por analogia à Lei nº 11.126/2005
Animal de suporte emocionalProporcionar conforto e estabilidade emocional ao tutorNão obrigatórioInexistente em âmbito federalNão — depende de regulamentação local e decisão judicial

A ausência de legislação federal específica para o ASE é o ponto central de toda a discussão jurídica. Enquanto o cão-guia tem acesso garantido por lei a todos os meios de transporte e locais de uso coletivo, incluindo condomínios, o animal de suporte emocional ocupa uma zona cinzenta normativa que os tribunais têm preenchido caso a caso.


O que diz o STJ sobre animais em condomínios

O Superior Tribunal de Justiça consolidou, no julgamento do REsp 1.783.076/DF (Terceira Turma, julgado em 14/05/2019), a tese de que a convenção condominial não pode proibir genericamente a criação e guarda de animais nas unidades autônomas. A restrição só é legítima quando o animal, concretamente, representar risco ou causar perturbação ao sossego, à saúde ou à segurança dos demais condôminos.

> "É ilegítima a restrição genérica contida em convenção condominial que proíbe a criação e guarda de animais de quaisquer espécies em unidades autônomas, quando não demonstrado o risco à incolumidade e à tranquilidade dos demais moradores e do próprio condomínio." > > — STJ, REsp 1.783.076/DF, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, j. 14/05/2019

Essa decisão criou um piso de proteção para todos os animais de estimação — independentemente de serem ou não de suporte emocional. A proibição genérica da convenção não se sustenta. O que o condomínio pode fazer é restringir o acesso a determinadas áreas comuns, exigir uso de coleira e focinheira, e aplicar sanções quando o animal efetivamente causar perturbação comprovada.

Em janeiro de 2025, a Terceira Turma do STJ reafirmou esse entendimento, reiterando que convenções condominiais não podem proibir genericamente a criação e guarda de animais de qualquer espécie nas unidades autônomas. Nesse contexto, deveres do síndico merece atenção própria na rotina condominial.


O ASE e o cão-guia: uma distinção que o STJ fez questão de marcar

Em maio de 2025, a Quarta Turma do STJ proferiu decisão relevante no contexto do transporte aéreo: os animais de suporte emocional não podem ser equiparados aos cães-guia para fins de acesso obrigatório. A ministra relatora foi expressa ao afirmar que, na ausência de lei federal específica que regulamente o ASE, não é possível impor às empresas aéreas — ou a qualquer estabelecimento — a obrigação de admitir esses animais nas mesmas condições que os cães-guia.

Embora o caso envolva transporte aéreo, o raciocínio jurídico é diretamente aplicável ao contexto condominial: o ASE não tem, por força de lei federal, o mesmo status jurídico do cão-guia. Isso significa que o síndico não está automaticamente obrigado a conceder ao ASE todos os privilégios que a lei assegura ao cão-guia — como acesso irrestrito a todas as áreas comuns, incluindo piscinas, salões de festas e playgrounds.


O que muda na prática para o síndico

A distinção jurídica entre ASE e pet comum tem implicações concretas para a gestão condominial. O quadro abaixo sintetiza o regime aplicável a cada categoria:

SituaçãoPet comumAnimal de suporte emocionalCão-guia
Convenção proíbe genericamenteProibição inválida (STJ, REsp 1.783.076)Proibição inválida (mesma base)Proibição inválida (Lei nº 11.126/2005)
Acesso a áreas comunsPode ser regulamentado pelo condomínioPode ser regulamentado, com maior flexibilidade se houver laudoAcesso irrestrito por lei
Laudo médico/psicológicoNão exigidoRecomendado exigirNão aplicável
Obrigação de coleira/focinheiraSim, conforme regulamentoSim, conforme regulamentoNão exigida por lei
Multa por perturbação comprovadaSimSimNão, salvo situação excepcional
Acesso a locais restritos a petsNãoPode ser concedido mediante laudoSim, por lei

O laudo psicológico ou psiquiátrico é o documento central que distingue o ASE do pet comum no contexto condominial. Quando o morador apresenta laudo de profissional habilitado — psiquiatra ou psicólogo com registro no CRM ou CRP — atestando que o animal integra o tratamento de condição de saúde mental, o síndico passa a ter um elemento concreto para avaliar o pedido com mais critério.


Jurisprudência: o laudo faz diferença

O TJDFT, em decisão de agosto de 2023 (Processo nº 0716825-19.2022.8.07.0007, 6ª Turma Cível), acolheu pedido de condômina para manter cães de pequeno porte em apartamento de condomínio que proibia animais. O tribunal destacou expressamente que a presença dos animais servia de suporte emocional à moradora, citando laudo psicológico que atestava a importância dos cães para a manutenção de sua saúde mental. A decisão foi unânime e condicionou o direito à ausência de perturbação comprovada aos demais moradores.

> "Deve prevalecer a liberdade de uso e gozo da propriedade e a presença dos animais na residência da autora serve de suporte emocional. [...] Não se trata de declarar a nulidade da convenção do condomínio, mas tão somente de relativizar a aplicabilidade da cláusula proibitiva e genérica de criação de qualquer animal doméstico, diante da ausência de comprovação do prejuízo à coletividade." > > — TJDFT, 6ª Turma Cível, Processo nº 0716825-19.2022.8.07.0007, j. 22/08/2023

O caso ilustra o padrão que os tribunais têm adotado: o laudo de saúde mental não garante automaticamente todos os direitos, mas pesa significativamente na ponderação entre o direito individual do morador e o interesse coletivo do condomínio. Sem laudo, o morador está na mesma posição de qualquer outro tutor de pet; com laudo, o pedido ganha uma dimensão de saúde que os juízes tendem a proteger.


Legislação estadual: o Rio de Janeiro como referência

Na ausência de lei federal, alguns estados avançaram na regulamentação. O Rio de Janeiro é o estado com o arcabouço normativo mais desenvolvido:

A Lei Estadual nº 9.317/2021 autoriza que animais de apoio emocional frequentem qualquer ambiente público ou privado de uso coletivo no estado, mediante prévio cadastramento junto à Secretaria Estadual de Agricultura. Essa lei, se aplicável ao condomínio situado no Rio de Janeiro, amplia consideravelmente os direitos do tutor de ASE em relação ao que a jurisprudência federal garante.

O PL 2.811/2023 da Alerj vai além: propõe ampliar o reconhecimento para outros animais além de cães, autorizar entrada em espaços públicos e privados e no transporte coletivo, com validade de laudo de até um ano (ou indefinida para deficiência irreversível), identificação por colete ou crachá e proibição de cobrança adicional pela presença do animal.

Síndicos de condomínios no Rio de Janeiro precisam verificar se a legislação estadual já está em vigor e aplicável ao caso concreto — o que pode ampliar significativamente as obrigações do condomínio em relação ao ASE.


O que o síndico deve exigir quando receber um pedido de ASE

Diante de um pedido de morador para manter ou circular com um animal de suporte emocional, o síndico deve adotar um procedimento estruturado que proteja tanto o direito do morador quanto o interesse coletivo:

Documentação mínima recomendada: o síndico pode — e deve — exigir laudo atualizado emitido por psiquiatra ou psicólogo com registro ativo no CRM ou CRP, indicando o diagnóstico (sem necessidade de detalhar a condição), a necessidade terapêutica do animal e a periodicidade de revalidação do laudo (geralmente de seis a doze meses). O laudo não precisa revelar o diagnóstico completo — basta atestar a necessidade do animal para o tratamento.

Documentação veterinária: vacinação em dia, carteira de vacinação emitida por veterinário e, quando aplicável, certificado de adestramento básico. Essas exigências são as mesmas que se aplicam a qualquer pet no condomínio.

Identificação do animal: em estados com legislação específica, pode ser exigido colete ou crachá identificando o animal como ASE, com nome do tutor e validade do laudo.

Regulamento interno: o síndico pode propor em assembleia a criação de um regulamento específico para ASE, estabelecendo os documentos exigidos, as áreas de acesso permitidas e as condições de circulação. Esse regulamento deve ser proporcional e não pode ser mais restritivo do que o que a lei e a jurisprudência permitem.

Vedação ao excesso: o síndico não pode negar o pedido com base apenas na convenção que proíbe genericamente animais — essa cláusula já foi declarada ilegítima pelo STJ. A negativa só é válida se o animal, concretamente, causar perturbação comprovada ao sossego, à saúde ou à segurança dos demais condôminos.


O que o condomínio pode e não pode fazer

A síntese do regime jurídico atual pode ser organizada da seguinte forma:

O condomínio pode: regulamentar a circulação de animais nas áreas comuns (coleira obrigatória, uso de elevador de serviço, horários de passeio em áreas externas); exigir documentação veterinária e, no caso de ASE, laudo de saúde mental; aplicar multas quando o animal causar perturbação comprovada; restringir o acesso a determinadas áreas (piscina, playground) para pets em geral, com maior flexibilidade para ASE mediante laudo.

O condomínio não pode: proibir genericamente a criação de animais nas unidades autônomas (STJ, REsp 1.783.076); impedir a circulação de cão-guia em qualquer área comum (Lei nº 11.126/2005); negar pedido de ASE sem analisar o laudo apresentado e sem demonstrar perturbação concreta; aplicar multas com base exclusivamente na convenção proibitiva, sem prova de perturbação.


Conclusão

A diferença jurídica entre o animal de suporte emocional e o pet comum no condomínio é real, mas não absoluta. O ASE não tem, por força de lei federal, o mesmo status do cão-guia — e o STJ foi claro nesse ponto em 2025. O que o ASE tem é uma proteção adicional baseada no direito à saúde e na função terapêutica reconhecida pelo laudo profissional, que os tribunais têm utilizado para relativizar cláusulas proibitivas genéricas das convenções.

Para o síndico, a mensagem prática é direta: não existe mais espaço para a proibição genérica de animais. O que existe é a possibilidade de regulamentar, exigir documentação e aplicar sanções quando houver perturbação concreta. O laudo de saúde mental não é um salvo-conduto irrestrito, mas é um elemento que pesa na balança judicial — e que o síndico precisa levar a sério ao analisar cada pedido.